42
Sobra sempre um poucona memória, as coisas antigasas histórias contadas antesde sermos apenas retalhosO amor foi uma estóriapara nós, nunca existiuSabemos que existe, mas...aonde? Nunca conseguimos acharMas, talvez, as sobras do que um dia nós fomosencontrem novamente o amorque não fomos capazes de achar.1976
41
Sobra sempre um poucode um amor que durou muito.Resta sempre um pedaçode alguma coisa que foi nossa.Um retalho, uma lembrançade um beijo de despedida,de uma palavra, de um gesto,de você, de mim, de nós.Somos pedaços de uma vidaque já foi um dia inteira.Pedaços, retalhos que sobramquando somos esquecidos.Lembranças, rápidas, fugazes.Devaneios, sonhos, amores.Um atrás do outro, um pouco.Uma procura de amornum lugar em que não existe.Um lugar onde o amoré só uma sobra, uma lembrança.1974
39
Eu... aqui... sósozinha...querendo ver estrelasàs 10 horas da manhãquerendo tirar pêrasde uma árvore de maçãAqui... só... euesperandoo luar amanhecer em teu olharo sol se esconder em sua bocaseu beijo, meu sonho apagarSó... eu... aquivivendoa esperança de morrera verdade me ferirna esperança de te ter1975
37
Às vezes eu me sinto como um cigarro aceso jogado fora na rua.Não sei se alguém já reparou, só sei que todas as vezes que jogo um cigarro fora eu penso nisso.Ele fica forte, bem vermelho e vai sumindo aos poucos.Passam carros e o levam de um lugar para o outro e ele continua ali, aceso, inatingível, se consumindo de pouco a pouco.A brasa acesa continua ali espiando pra mim como se me acusasse de me sentir igual à ela.Mas passa um outro carro bem por cima do cigarro e o esmaga, apagando e esmagando a mim também.Morro lentamente todas as vezes que vejo essa mesma cena.Sou como um cigarro jogado fora: inútil.1976
35
Existe uma históriaque dá insônia.Existe um amorque não tem moral.Existe um caminho que dá no infinito.Existe uma verdadeque ninguém acredita.Existe um débito que é imortal.Existe um calorque não é normal.Existe a tristezade não saber amar.Existe a incertezade não saber pensar.Existe a desconfiançade não saber se calar.Existe a dorde não conseguir se encontrar...1975
31
Vermelho cor tristeespada em ristesangue em pingosgotas...coágulos...Vermelho cor feiamanchando a areiaque é tão brancapura...limpa...Vermelho cor mortacorrendo pela aortatal água limpandocorrendo...cristalina...1975
29
Nem todos os caminhoslevam à procura da razão.Meus caminhos me levamà procura da existência.De uma existência minha,talvez velha como um século,talvez nova como um hoje,talvez um só momentoou uma eternidade.Minha existência talvez sejao meu triste dia-a-dia.Repleto de nada.Refeito de dúvida em dúvida.Faltoso de tudo.Meu caminho existecomo minha existência também.Só não sei como procurar,só não sei como começar,só não sei ser.1975
27
A gente tem que se perder,antes de tentar se encontrar.Tem que compreenderque é preciso lutar para viver,que é preciso sofrer para viver,que é preciso matar para não morrer.A gente tem que tentar chorarpara não se sufocar.A gente tem que sentirpara não se perder.A gente tem que cair,pra depois tentar levantar.A gente tem que se dominarpara não ser dominado.A gente tem que saberque viver é inútil,que amar é difícil,e que...SERé quase impossível.1974
25
Olhos sem vida.Expressão vazia.Vida cansada,feita de nada.Rosto incolor,corpo sem dor.Andar transparente,quase não sente.Boca fechada,mãos abertasestendidas...esperando...Olhos fechados.Expressão sem vida.Vida vazia.Rosto sem dor.Corpo transparente.Andar não se sente.Mãos procurando,não encontrando.Cérebro aberto,atento... pensando.Ser seco.Eu...1974
23
Eu só sei que nada seie mesmo que soubesse alguma coisanão saberiaporque os que dizem que sabemsão os que menos sabem.Dizendo que não sei,sei que nada sei.Ao dizer que só sei que nada sei,estou dizendo que não seinem o que digo saber.Porque se eu soubesse que nada sei,estaria dizendo que sei alguma coisa.E na verdadeeu não sei de nada.1975
Absurdo
Absurdo é nós pensarmos que no mundo de hoje não pode existir paz.Absurdo é escondermos a nossa paz interior com medo de estarmos errados se acaso a demonstrarmos.Absurdo é pensar que o amor é uma coisa que não podemos assumir.Tanto podemos como devemos assumir porque se todo mundo assumisse o amor que tem, não teríamos tantos conflitos interiores.Absurdo é pensarmos que num mundo onde existe tanto ódio, tanta guerra, tanta miséria, tanta fome, não exista lugar para uma palavra de carinho, consolo, que não exista lugar para um gesto espontâneo de amizade, para um maior afeto mútuo.Absurdo é nos metermos em nossas cascas e fingirmos que não temos tempo para um aperto de mãos, para um dar e receber recíproco.Absurdo é sentirmos vergonha de estender as nossas mãos para os nossos semelhantes.Absurdo é viver na maior paz espiritual sabendo que talvez um pouco de nossa vida interior, de nossos pensamentos, de nossos sentimentos, possa ajudar muitas outras pessoas.Absurdo é escondermos nossas angústias, nossas fossas, nossos problemas, com medo de outras pessoas não os entenderem.Absurdo é saber que existem pessoas que podem nos ajudar mas que temos medo de procurar.Absurdo é o medo, o ódio, o desamor.Absurdos somos eu, você e todas as pessoas que se escondem com medo de viver, com medo de SER.1976
17
Porque hoje é dia de chuva estarei triste porque convencionei que dia de chuva é dia de tristeza.Porque hoje é dia de chuva, não cantarei, não falarei, porque acreditei um dia (e acredito) que dia de chuva é um dia mudo.Porque hoje está chovendo, eu chorarei, porque sempre soube que comparam pingos de chuva com lágrimas e quero comprovar isso.Porque hoje é dia de chuva pensarei em você (não pense que só faço isso em dias de chuva), mas pensarei nas coisas ruins que fiz a você e tentarei achar um meio de consertá-las.Talvez amanhã seja um dia de sol (e se por acaso for), sairei cantando, rindo, chamando por você e querendo te ver, porque nas minhas convenções, dia de sol é para ser feliz - mesmo que por dentro minha alma e meu coração estejam despedaçados por causa de apenas um... dia de chuva.1974
15
Consumiu-seo amor lindoConsumiu-seo amor tortoConsumiu-seapós ter vindoConsumiu-seapós estar mortoe pelo telefonevê o consumoque consomese consumindode um amorque quanto maistidomais terásuco / sumopra serdiluídovivido novamenteconsumido.1975
13
Semeie
amor por todos os lados
um fim pro centro da terra
o ódio na estratosfera
paz para os crucificados
Semeie
cruzes em uma sepultura
sementes em um jardim
um coração dentro de mim
um meio para uma abertura
Semeie
você dentro de mim
uma flor nos corações
força para se darem as mãos
apenas a semente do fim1975
2
Foco chama luzfoco luzchama vermelhavermelha luzfoco azulluz azulvermelho focoazul chamachama luz focochama focoamareloamarela luzverde focoverde chama amarelafoco luz chamagrená luzluz preta luzidiapreta lúgubre chamafoco preto grenáfocochamaluzmulti-coloridas1975
CAOS
Sede fome vazioAmor solidão caosMas...se a sede faz a fomee se a sede mata o homem,pra que lutar? pra que viver,numa crise de existênciaque gera a incompreensãoe não traz alívionem sobrevivência...?E se o amor só traz desgosto e se nem só de amor vive o homempra que amar, porque quererter uma coisa que não nos dará gostoe que nos leva ao vazioe não nos livra do caosque é o nosso coração?1975
Reflexão
Tudo passa no meu dia. Minha vida é como um rito. De algum lugar me sai um grito. Minha alma é minha pena, se desfaz num só ventar. Minha dor é meu sofrer e me entrego ao meu pensar. Meu sorriso é meu sonhar, já não sei o que é viver. Vou pensando no perder. Meu pecado é não sentir, meu sentir já se perdeu. Em que lugar está meu eu? Me fecho, me amarro, me tranco, esperando um só arranco. Nasço, vegeto e morro, não encontro o meu barranco. Meu poema é meu tributo. Pela vida eu não mais luto. Minha angústia é meu final. Onde está o meu minuto?1975
Contra-capa
Um minuto de vida na hora da morte são como séculos de existência... 1975
Verso da Capa
Na vida da gente tem horas fáceis e horas difíceis, horas do fazer e não-fazer, horas do amor e desamor. Horas de fossa, angústia, alegria, solidão e esperança. Mas a hora maior é a hora da morte. Hora em que a gente se liberta completamente do CAOS que é nosso coração. 16/01/1976