Tuesday, October 10, 2006

43

Corra, sangue,
em minhas veias,
artérias e olhos.
Faça meu coração pulsar.
Encharque de sangue
meus pés, braços e pernas,
mãos, cabelos e dedos.
Faça minha boca
sentir seu úmido gosto.
Gosto vermelho de nada.
O certo seria limpá-lo.
Mas não, eu o quero
escorrendo sobre mim,
sobre meu corpo.
Eu o quero fazendo
poças aos meus pés.
Escorrendo como um rio infinito,
sem ondas, pontes ou diques.
Quero ver meu sangue
correr, sujar e limpar.
Levar tudo que tenho por dentro
de podre, de prestável ou não.
Todo o azul, o verde ou amarelo
que eu venha a ter ou tenha tudo.
Quero ver meu sangue correr
e sair por todos os lados de mim.
Quero tudo escrito por mim e de mim,
com o sangue que é meu.

1975

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